ele. inteiro. consciente. nu.

Do que ele precisa? Ficar nu. Mas não a nudez rasa, veloz, que precede o coito. É da nudez construída passo a passo, a nudez construída no encontro. Ele tem medo de ficar nu. Quanta coragem é preciso para encarar suas próprias escaras? Seu despir-se é sempre transitório. Da cama para o banho, dali para o armário. Fim.

Ou do sofá para a cama, que seja, num fugaz encontro com outro corpo que teme as profundezas da nudez tanto quanto ele. Fazem ali um teatro. Fingem que estão juntos, fingem intimidade, fingem, fingem. Se despedem sem terem verdadeiramente se despido. Fim.

E disso faz-se um ciclo que se repete com personagens diferentes, mas que se sustenta no mesmo vício (pela superfície?). Contentamento é algo que conhece por curtíssimos períodos: o triz de segundo do gozo. Fim.

De repente, toma conta o tédio. Como pode?, pensa, repassando na cabeça o tanto de coisas e pessoas diferentes que mancham sua vista a cada dia. É isto o que são: borrões disformes. Aos poucos, ele vai perdendo o interesse. Já não presta mais atenção em nada. Obras de arte em potencial se enfileiram como borrões junto aos borrões de fato. Tanto faz.

As luzes que se acendem não são mais que filetes de pouca intensidade: uma ideia aqui, outra ali. Quando vêm, parecem geniais. Bar, cinema, boite, praia. Quando acabam, foram mais do mesmo. Leva tempo para que ele perceba o quanto a nudez faz falta. Talvez ele nem mesmo saiba se já ficou nu alguma vez.

Até que, num dia como outro qualquer, um dos borrões ganha vida. Ganha braços, pernas, curvas. Ela poderia arrancar-lhe a roupa, mas prefere brincar com a sugestão de que ele mesmo o faça. Ela sabe que despir-se dói quando a roupa-casca é do tipo que se confunde com a pele. Para em frente a ele como se fosse um espelho. Resgata do fundo da alma o amor e a presença que prometera deixar de negligenciar a si e a quem cruzasse seu caminho. Ela sabe que está ali para mostrar-lhe as feridas que ele não enxerga. É o acordo tácito entre eles.

Ele vai tirando peça por peça enquanto ela resiste à tentação de rasgá-las todas. São camadas e camadas de inverno, todas disfarçadas de verão. Ele sente frio, desconforto. Mas ela irradia luz e quanto menos pano, mais ele sente na pele o calor que o acolhe. Em alguns pontos do seu corpo, no entanto, é este mesmo calor que ativa a dor. É através do calor que ela acha e mostra as feridas. Sem tocar, sem arranhar, sem rasgar, sem machucar.

Ele está nu, finalmente. Duas presenças inteiras, entregues. Temendo a força da mágica que desconhece, ele recua como se quisesse se afastar de vez, mas o calor é já envolvente o suficiente para que ele deposite naquele instante toda a confiança do mundo. Confiança que ele mal se lembrava que tinha.

Aos poucos, se aproximam; se tocam; deixam entrelaçarem-se corpos e olhares. Estar nu faz com que ele finalmente possa ressignificar a vulnerabilidade. Nunca antes daquele momento se sentira tão forte. A coragem de expor as feridas, a coragem de senti-las de fato e então deixar vir a cura. Mas não porque o calor sozinho seja a cura em si, e sim porque faz ebulir tudo aquilo que estava dentro e precisava sair.

É incômodo. Cem graus. Mais. Ele se pergunta o que faz ali. Quanto tempo faz que se despiu para ela (para si mesmo)? Um segundo? Um minuto? Uma década? Questionar-se toma forma de fuga, então ele retorna. Ela já sabe onde dói e cuida das feridas suas e dele em vez de cutucá-las com desdém. Que alívio! Que bom!

Aos poucos, os pensamentos cessam, os medos se vão. Eles apenas são. Experimentam juntos a presença. Quando a energia se eleva e a missão se cumpre, ela, que havia sido um borrão, ganha asas. E voa. Deixa para ele a compreensão de que todo encontro é sagrado. Ele. Inteiro. Consciente. Nu.

Escrito em junho de 2015.

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